
Onde e
quando experimentei a vida feliz, para a poder recordar, amar e desejar? Não sou
eu o único, nem são poucos os que a desejam. Todos, absolutamente todos, querem
ser felizes. Se não conhecêssemos a vida feliz por uma noção certa, não a desejaríamos
com tão firme vontade. Que significa isto?
Se
perguntarmos a dois homens se querem alistar-se no exército, é possível que um responda
que sim, outro que não. Porém, se lhes perguntarmos se querem ser felizes, ambos
dizem logo, sem hesitação, que sim, que o desejam, porque tanto o que quer ser militar
como o que não quer têm um só fim em vista: o serem felizes. Opta um por um emprego,
e outro por outro. Mas ambos são unânimes em quererem ser felizes, como o seriam
também se lhes perguntassem se queriam ter alegria. De fato, já chamam
felicidade à alegria. Ainda que um siga por um caminho e outro por outro,
esforçam-se por chegar a um só fim, que é alegrarem-se. Como ninguém pode dizer
que não experimentou a alegria, encontramo-la na memória e reconhecemo-la
sempre que dela ouvimos falar.
Longe de
mim, Senhor, longe do coração deste vosso servo, que se confessa a Vós, o julgar-se
feliz, seja com que alegria for. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios,
mas só àqueles que desinteressadamente Vos servem: essa alegria sois Vós.
A vida
feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz, e não
há outra. Os que julgam que existe outra apegam-se a uma alegria que não é a verdadeira.
Contudo, a sua vontade jamais se afastará de alguma imagem de alegria...